Os perigos da medicação sem prescrição em gatos

Categoria: Saúde

Autor(a): Rodrigo Casemiro Pinto Monteiro | Colaborador(es): Jornalismo TopCo | Cidade: Campinas | 04/01/2019 - 14:58

Remédios oferecidos ao felino sem orientação de um profissional podem mascarar a doença, dificultando o processo de diagnóstico
Foto: Lightspruch/iStock.com

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A medicação de animais de estimação sem prescrição de um veterinário cada vez mais se mostra um risco em potencial, pois pode colocar a vida dos pets em risco. Trata-se de uma prática muito comum por parte dos tutores, que pode até levar o gato à morte.

Além da possibilidade de ter efeitos colaterais graves, medicar o felino por conta própria poderá mascarar sinais clínicos da doença, o que dificulta o processo de diagnóstico e atrasa o início do tratamento correto.
 
Peculiaridades no metabolismo do gato
Medicar gatos por conta ainda é uma prática muito comum. Sabemos que ninguém faz isso de má fé. Muitas vezes o tutor não tem condições financeiras ou de transporte para levar o gato ao veterinário e, na tentativa de resolver o problema, pode cometer um erro grave. Essa prática merece ainda mais destaque quando envolve felinos, uma vez que esses animais possuem algumas peculiaridades de biotransformação em seu metabolismo e eliminação de fármacos pelo fígado.

Quando um ser humano ou um felino recebe qualquer medicamento por via oral, grande parte dos componentes é absorvida pelo intestino e levada até o fígado, onde irá sofrer algumas reações químicas e, com isso, ocorre o processo de metabolização e eliminação do medicamento pelas vias hepática ou renal. Cabe ao organismo do animal excretar o medicamento já metabolizado ou pela bile ou pela urina.

Um exemplo clássico de medicamento tóxico administrado aos gatos por via oral é o paracetamol. Por ser um medicamento muito utilizado na medicina humana e comprado com facilidade em qualquer farmácia, o proprietário pensa equivocadamente que é inofensivo. Porém, os gatos têm deficiências de algumas enzimas-chave no processo de metabolização desse fármaco. Dependendo da dose administrada, poderá ocorrer necrose hepática e óbito.
 
Gatos não devem receber remédios indicados para cães
Outra medicação de uso muito comum na medicina humana, inclusive prescrita com frequência para cães, é a dipirona. Porém, para os felinos, esse medicamento não é indicado. Mesmo se for receitado por um profissional, a dose, a frequência, e o tempo de administração deverão ser reduzidos. Pelo mesmo motivo, a espécie felina não metaboliza adequadamente esse fármaco, e, dependendo da dose, poderá levar o gato a um quadro de intoxicação.

Com relação aos medicamentos utilizados para pulgas e carrapatos, muitos deles possuem uma substância chamada permetrina. Esse composto não deve ser utilizado em gatos, que podem apresentar sinais de intoxicação, como tremores, salivação, vômitos e convulsões. Isso explica as diferenças entre os medicamentos tópicos para cães e para gatos no controle de ectoparasitas, portanto um gato jamais pode ser considerado como um cão de porte pequeno.

Muitos tutores não estão habituados ou têm dificuldade de dar o remédio para seus animais. Quando se trata de gato, é comum observar uma grande discrepância entre o que foi prescrito e o que realmente o animal ingeriu. Os gatos são mais seletivos e sensíveis a odores e paladares não familiares do que os cães, alguns não aceitam a medicação misturada aos alimentos e nem junto com os líquidos. Isso pode fazer com que o proprietário altere, por conta própria, a medicação a ser ministrada ao animal, ou seja, pode trocar a versão em comprimidos por uma líquida, por exemplo. Muitas vezes essa troca acontece sem que um veterinário seja consultado e isso pode prejudicar a saúde do gato, visto que, mesmo que o medicamento tenha o mesmo nome, como a amoxicilina comprimido e a amoxicilina suspensão oral xarope, a medicação ou mesmo a dosagem podem estar erradas. Cada espécie animal tem suas próprias características de metabolismo orgânico: O que pode ser um remédio para um, pode ser veneno para outro e vice-versa.

Além desses exemplos, os medicamentos tópicos, apresentados nas formas de pomadas, cremes, colírios e xampus também devem ser lembrados. Muitos deles podem ser absorvidos pela corrente circulatória e atingir níveis consideráveis no sangue dos felinos. Outros podem ser ingeridos pela lambedura frequente do animal no local de aplicação e, assim, ter grande parte do produto absorvido pelo intestino. Caso isso ocorra com um medicamento não metabolizado pela espécie felina, o gato poderá também desenvolver um quadro de intoxicação.
 
Não ofereça remédios de humanos
Muitos dos anti-inflamatórios comumente utilizados por humanos que se automedicam também podem ser classificados como tóxicos e não indicados aos gatos. É o caso do ibuprofeno, do diclofenaco e do ácido acetilsalicílico (AAS). Complicações como hemorragias, gastrite aguda, úlceras gástricas e insuficiência renal poderão ser encontradas após o uso dessas substâncias, independente da dose ministrada.

Alguns medicamentos tópicos muito utilizados em seres humanos são os à base de benzoato de benzila, indicados para tratamento da sarna (escabiose) e piolhos. Em gatos, esse composto poderá causar quadros neurológicos graves, como incoordenação motora e convulsões.

A orientação dada por um médico veterinário sempre é de grande valia, mesmo que o gato tenha um simples problema cutâneo. Com base em uma consulta, exame físico detalhado e exames complementares, o médico veterinário chegará a um diagnóstico preciso e prescreverá o tratamento mais adequado para o problema de seu felino, não colocando a vida dele em risco.

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Rodrigo Casemiro Pinto Monteiro
Universidade Anhanguera de São Paulo Campus ABC e Santo André - Curso de Medicina Veterinária

 
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