Visitas? Nem pensar!

Se seu gato é daqueles que fogem de visitas, nossas dicas vão te ajudar a deixá-lo mais sociável

Imagem Alicja por Pixabay

Você já ouviu aquele ditado “água e óleo não se misturam”? Pois é, quem é gateiro sabe que essa afirmação se aplica perfeitamente aos seus gatos e aos visitantes da casa. Claro que existem exceções. Contudo, na maioria das vezes, convencer o gatinho a ser receptivo com os convidados não é tarefa fácil. De acordo com Laila Massad Ribas, médica veterinária especializada em Medicina Felina, os gatos são animais semissociais. Isso significa que, para alguns deles, a presença de seres humanos pode representar perigo. “Porém, se esse comportamento se restringir a pessoas desconhecidas não há motivos para se preocupar”, afirma Laila. Apesar de serem predadores, os gatos também são presas eventuais e podem sentir medo quando vivenciam situações novas. “Por exemplo, um gato está em cima do muro de uma casa, uma pessoa desconhecida se aproxima e ele foge. Essa cena representa um medo natural e normal”, afirma Claudia Terzian, especialista em comportamento felino. Segundo ela, conhecer, controlar seu território e estabelecer rotas de fugas com esconderijos também são comportamentos naturais de gatos. Já a fobia social é patológica, pois o medo acontece mesmo em situações seguras, quando o gato já vivencenciou aquilo mais de uma vez.

Segundo a especialista em comportamento animal, Joice Peruzzi, a maioria dos gatos que se escondem quando chegam visitas são aqueles que foram pouco socializados com pessoas quando filhotes e por isso tendem a ser mais medrosos com elas. Além disso, alguns gatos são naturalmente mais tímidos e desconfiados e esse fator, somado a uma socialização insuficiente, faz com que fiquem ainda mais resistentes à presença de estranhos na casa.
Há felinos que se escondem por medo da campainha por não terem sido acostumados com esse som ou pela bagunça da chegada de pessoas com gritos, movimentos bruscos, sons diferentes, mas depois que tudo se acalma reaparecem e fazem questão de inspecionar tudo. “O tutor precisa se preocupar com casos extremos, como quando os felinos se escondem por muito tempo e apresentam indícios de desconforto”, alerta Joice. Entre os sinais estão ofegância, pupilas dilatadas, urina e fezes fora do lugar, vômito e diarreia. Além disso, o gato não come nem bebe enquanto ninguém for embora. “Se for forçado a se aproximar da visita a reação será de pânico ou mesmo de agressividade, podendo até morder ou arranhá-la. Alguns felinos também podem usar as mordidas para chamar a atenção do tutor que deixa de dar atenção ou brincar com ele, por exemplo, para ficar com a visita.

Por que tanto medo?

O medo que o gatinho tem das visitas pode acontecer por vários fatores isolados ou pela combinação de todos. O primeiro é a genética. Alguns felinos são mais medrosos ou agressivos do que outros e tendem a ter filhotes com essas características em seu comportamento. O segundo fator é a epigenética, ou seja, tanto no período de acasalamento quanto na gestação da fêmea, fatores ambientais como fome, doenças, estresse e maus-tratos podem alterar a genéticas dos filhotes fazendo com que estes nasçam medrosos ou agressivos. Num ambiente hostil ser medroso e agressivo pode ser uma vantagem que aumenta a chance de sobrevivência do filhote. Esse efeito perdura por até três gerações, ou seja, os netos e bisnetos dos gatos que passaram situações difíceis e estressantes tendem a nascer mais medrosos ou agressivos. “É como se a genética de cada indivíduo, tivesse várias possibilidades que pudessem ser ligadas ou desligadas conforme as influências do ambiente”, explica Claudia. O terceiro fator citado anteriormente é a socialização do gato quando filhote. É um período curto que se encerra aos dois meses de idade no qual é muito importante que o gatinho tenha muito contato com outros animais, pessoas e sons.

Imagem Gundula Vogel por Pixabay

Como acostumar o filhote?

A maioria dos filhotes felinos são adoráveis e muito sociáveis, por isso nem passa pela cabeça do gateiro a questão da socialização. Essa preocupação geralmente só aparece quando ele demonstra os primeiros sinais e aí já é tarde demais, pois torna-se necessário um tratamento mais longo e trabalhoso para os tutores. Se acostumados desde pequenos, eles podem gostar de receber carinho de alguém de fora. “Para isso, é importante que o tutor leve o filhote no colo até a visita. Ela deve se aproximar lentamente e acariciar a cabeça”, explica Laila. Depois do primeiro contato o felino poderá ficar livre para andar pela casa e até se afastar se desejar. “Essa ação deve se repetir sempre que alguém de fora chegar, mas se a frequência de pessoas estranhas na casa for baixa, as chances de o gato se acostumar são pequenas”, alerta Laila.
Claudia afirma que mesmo quando os filhotes ainda estão com suas mães devem ser manipulados com carinhos e massagem pelo corpinho durante cinco minutos por pessoas diferentes todos os dias. Esse simples procedimento já pode fazer uma grande diferença no comportamento do gato quando adulto. “Contudo, se em algum momento ele começar a não gostar e rejeitar este contato com desconhecidos, não se deve forçar o gato aceitar, pois pode irritá-lo”, completa Claudia.

Mude essa atitude

O importante é sempre relacionar a presença de pessoas novas com brincadeiras e comida. É preciso desvincular o som da campainha com a chegada de um estranho. “Sempre que ela tocar ofereça um petisco ou brinquedo que ele goste bastante”, aconselha Laila. Segundo Joice, o som deve começar baixo e ir aumentando gradativamente na própria campainha ou em gravações desta para que o gato vá se acostumando.
Disponibilize vários esconderijos nos quais o gato sinta-se seguro. “Pode ser um canto dentrodo guarda roupa, debaixo dos cobertores da cama, dentro de uma toquinha, um caixa de papelão”, indica Claudia. Se for necessário feche a porta do quarto para que o gato se sinta protegido. “Jamais o tire de seu esconderijo para mostrá-lo aos convidados. Ele deve sair sozinho se quiser, pois sua reação pode ser muito agressiva”, orienta Claudia. Se a visita gostar de gatos, ela poderá oferecer um prato com patê ou ter um brinquedo como uma vareta com algo pendurado para tentar brincar com o gato. “Eu gosto de usar um cobertor para evitar que o gato chegue até a visita. Normalmente ele não consegue atacá-la e acaba desistindo aos poucos, tornando-se mais sociável”, completa Claudia.

Como as visitas devem se portar?

Para acalmar o bichano o tutor pode orientar seus convidados a falarem baixo, fazerem pouco barulho e oferecerem petiscos e brinquedos para o gato. “Devem ser alertados também que gatos não são como cães e que, para se autopreservarem, é melhor que fiquem escondidos”, diz Laila. Para Joice, ignorar pode ser a melhor opção, pois quanto mais a visita fingir que não dá a mínima para o felino, mais ele vai se sentir seguro e as chances de sair do esconderijo aumentam. “A principal orientação é que não tente tocar o gato e não dê atenção para ele, ou seja, sequer olhe para o animal. Quando ele se sentir mais a vontade com a proximidade, a visita pode começar a brincar”, afirma Joice.

Arquivo de Kátia Bertoni

CASO DE SUCESSO Kátia Bertoni, de São Paulo-SP, é dona do Nino, um gatinho que tinha muito medo das visitas. Toda vez que o interfone tocava ele corria para se esconder. “Na maioria dos casos ele ficava com o coração disparado e tentava voltar para seu esconderijo”, conta Kátia. O gatinho chegou na casa de Kátia com 4 meses e já esboçava medo ao ouvir qualquer barulho, principalmente com a chegada de convidados. Para resolver esse problema, a tutora começou a usar uma técnica de comunicação mais clara com Nino. “Toda vez que vem alguma visita em casa eu sempre reservo uns minutinhos para ficar sozinha com ele, explico sobre a pessoa que virá em casa, falo que são pessoas amigas e que ninguém nunca fará algum mal a ele. Digo que sempre o protegeremos e peço sua confiança”, conta. E os resultados foram satisfatórios. “Por incrível que possa parecer, desde que comecei com essa prática ele ficou muito mais receptivo com as visitas e até permanece no mesmo ambiente até elas irem embora”, completa Kátia.

Nossos agradecimentos à Joice Peruzzi Especialista em comportamento felino da Pet Estar, Claudia Terzian Especialista em comportamento felino da Cão Cidadão e Laila Massad Ribas Médica veterinária especialista em Medicina Felina pela FMVZ-UNESP.



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